Desatando os nós...

Por Aglahir Merolah

Eu não havia notado todo o sangue que gotejava, ora pouquinho, ora jorrava.

Eu não sabia que a minha ferida estava sangrando em quem não devia.
O universo tentou avisar, mas eu não estava pronta para ver. Virava e mexia lá estava o bumerangue que insistia em voltar. Quanto mais para longe eu o mandava, na esperança de que não voltaria, mais forte ele tornava.
Até que eu me recolhi e prestei atenção a toda aquela gritaria, todo aquele barulho que fazia aqui dentro.

Quando estava pronta, os sinais começaram a aparecer ainda mais fortes. Durante coisas simples, como num café com uma amiga (Mônica Santana), ou na cerveja com outra (Amanda Torres), ou ainda nos desabafos com a outra amiga (Karina Machado), nas cartas do tarot, no prestar atenção ao outro, no enxergar que os conselhos que damos as pessoas também podem ser aproveitados em nossa própria vida... enfim eu precisava de uma mudança.
A vida tão generosa comigo, me levou até as montanhas. Lá eu encontrei meu porto seguro, um lugar para chamar de meu no mundo, mas acima de tudo eu descobri que poderia levar minhas dores, minhas aflições e deixar tudo lá para ser curada. Sim, minha alma estava tão machucada, e eu sem parar para lhe dar atenção, sangrei em quem não devia.

Numa manhã eu fiquei quieta e ouvi minha Vasalisa (nossa intuição). Ela apenas me falou:"vai doer fazer o que precisa ser feito, mas você precisa fazer. E acima de tudo, você consegue."

Lá fui eu...

Juntei os tão emaranhados nós, arrumei tudo numa pequena mala, escolhi a trilha sonora que me ajudaria a passar pelo processo e saí para a montanha. Foi preciso muita coragem, honra, carinho, paciência e amor. E se não fosse por amor, eu nem teria conseguido.

No caminho, logo que entrei no metrô eu já comecei a chorar, a ponto de um senhor que estava sentado do outro lado, ficar me olhando. E mesmo eu estando de óculos escuros, dava para ver. Só virei de costas para não preocupá-lo e continuei. Ao entrar no trem que estava absurdamente cheio eu fiquei num canto, e fui em pé o tempo todo, a mochila estava meio pesada, mas entendi que na verdade ela nem era tão pesada assim, o peso estava no que eu carregava comigo em minha mente e coração.

Houve momentos de eu pensar em voltar para casa, mas minha mente recebeu sinais... a tatuagem de punhal na perna de um passageiro, que indicava que o corte precisava ser feito, o triskles celta, na perna da outra moça, indicando a comunhão perfeita do corpo, mente e espírito. A coruja nas costas de uma pessoa, que me dizia que eu estava tomando uma sábia decisão. E o prêmio máximo, a pena no braço de uma outra mulher. E eu sempre ganho penas de pássaros em minhas viagens. Eu fui!
Ao chegar em Mogi eu já vi o céu pretejando. O que dificultou ainda mais, porque minha ideia era subir tudo a pé, achei que assim estaria expurgando o que fui expurgar.
Numa tomada de decisão rápida, optei por subir de carro e assim garantir mais tempo na montanha. Eu precisava disto, voltar para casa, sentir o vento no rosto, ver que mesmo com as centenas de anos que se passaram a montanha estava ali, forte, de braços abertos para me ajudar.

Procurei um lugar, e encontrei uma rocha, pedi permissão e lá desabei. Chorei copiosamente, chorei muito mesmo. Eu precisava lavar a alma, precisava sentir que a dor finalmente sairia.

Me acalmei e comecei a fazer o que fui fazer. Acendi um incenso, pedi sabedoria e comecei. Escrevi alguns bilhetes de libertação, e mandei a quem era de direito. Eu precisava perdoar algumas pessoas, e assim o fiz.
Você sabia que quando a gente perdoa, a gente para de carregar o outro conosco? Foi isso o que fiz.

Fui liberar espaço, fui me curar, mas acima de tudo, fui porque quero usar a roupa de alma leve para tudo o que mereço de bom nessa vida. Quero poder ser eu mesma sem pedir licença para expandir meu sorriso, amar com verdade, falar o que sinto de maneira honesta e transparente.
Dada hora o tempo fechou e entendi que a montanha estava me expulsando dali. Quase como que dissesse: vai embora, e não se preocupa que vamos cuidar de tudo. Eu comecei a descer a pé, sozinha - fisicamente falando, mas jamais espiritualmente -, em meio a nevoeiro, só eu, a estrada, árvores e pensamentos.

Depois disso eu ganhei um bônus. Ah, universo, você sempre tão generoso comigo! Eu desejei muito que uma coisa acontecesse, mas ela não aconteceu. E teve um porque! Receber o que eu queria era possível, mas não viria de mão beijada, na verdade era preciso que eu mesma agisse.
Quanto mais eu descia, mais minha ficha ia caindo... Era eu quem teria que mostrar: "olha eu estou aqui pronta, com um livro novo para escrever nossa história". Era o meu me posicionar diante a vida que me traria os frutos.

Cheguei a cidade e precisei de um uber. Veio uma moça me buscar. A gente conversou, contei um pouco do meu dia para ela e ela um pouco da sua vida para mim. E não é que eu consegui fazer com que ela enxergasse coisas muito parecidas com as que eu tinha vivido naquele dia? Quanto a isso, só posso agradecer imensamente por contribuir.
Acredito que quando a gente se cura, o que está ao redor também recebe esse amor, e é por isso que que mesmo que doa, precisamos cuidar do que está nos machucando, pois isso reverbera ao seu redor, em seu dia a dia.

Do que você precisa se livrar? Quais os nós que estão amarrando sua vida à pessoas e situações que já não precisam mais serem carregadas? Seja lá o que for, livre-se desse peso todo!

Texto de autoria de Aglahir Merolah
Sua reprodução total ou parcial está condicionada a autorização prévia da autora e sujeita as penalidades da legislação vigente. Lei 9.610 de 1998

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